sexta-feira, 29 de outubro de 2021

19

Dos pedaços
soltos dos poemas 

perdidos e espalhados
pela memória 

deste computador
prestes a falhar 

(sei que isto também
logo será abolido 

cedo ou tarde
pela velha máquina) 

não é possível
pensar em livros 

canções caminho
nenhum 

(espantado, um par
de olhos me observa

sob o escombro
dos entulhos)


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

18

Outubro embriaga-se de tempestades
palavras-larvas
moles manhãs (manhãs moles)
mesmo o barulho invisível das borboletas está molhado 
dias lustrados e claros 
sol e suor sob a cidade dourada 
pássaros pingam 
por suas delicadas gargantas
e o poema aparece assim
lavado

17

canto daqui 
recanto de lá 
conversa de passarinhos

domingo, 24 de outubro de 2021

16

difícil não é ser
poeta e sim continuar
permanecer poeta transcrever
a terra arrasada 

penso nisso enquanto imploro
por um país uma pausa um
milésimo de milagre  


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

15

romper aos poucos 
a fiação de meus ossos 
(rabiscos mergulhados
no breu do disco rígido) 
partir aos poucos
daquilo que apago e não guardo
dos falsos afagos dos poemas
alterações nulas nuvens estéreis
de tudo o que já está partido 
perder aos poucos
morrer na praia 

14

é preciso estar
cheio e vazio
para conseguir
o poema
é como abrir
um furo atrás da cabeça
para os sussurros da luz 
as palavras
os outros

e por ali
aos poucos
partir de si

terça-feira, 19 de outubro de 2021

13

as mãos dos poetas

ao lado da cama


dormem sobre

os meus cabelos


por isso os nós nos fios

o branco novo dos fios


por isso estes sonhos

prenhes assoprados 

domingo, 17 de outubro de 2021

12

Contém no primeiro todos

os outros poemas

as canções de agora 

dentro daquele urso

O Lago dos Cisnes em

lamentos de pelúcia


no primeiro choro

meu último murmúrio de amor


(se conto a mesma história

é que espero por uma resposta

desde os calos de fazer caligrafia) 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

11

como uma boca
separada de sua
palavra 

o dia dublado
deixa suas brechas (o 

que vejo nunca é
o que penso) 

entrevistas nas poças de chuva

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

10

escrever:
cantar o tempo
cambaleante  

(apesar do barulho
o apocalipse pulsa
silenciosamente)

terça-feira, 12 de outubro de 2021

9

Já estive mais íntimo dos versos
levava as palavras como lanternas 
outrora soube terminar poemas
ainda que nunca tivesse ideias  

ainda que nunca ideias ardessem
o som e o segredo do som singravam
do centro ao pescoço de cada coisa 
por algum caminho agora trancado

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

8

dedos não se movem
como nuvens
passam longe dos pássaros 
não temperam tempestades 
dedos estão mais para
pernas de aranha
trabalho de armadilhas
para estilhaços de memórias
(talvez dois ou três mosquitos) 


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

6

O poeta está sempre em estado de pesquisa
estuda atento a variação das nuvens das cores
os olhos das pessoas dentro das bocas dos bichos
a antena do poeta não entra em pane (nunca)
o corpo do poeta está repleto de botões
mas não se desliga um poeta / nenhum deles desliga o poeta
o poeta analisa os clássicos
os cacos
os pássaros 
a cabeça do poeta é um hospital de poemas
um jardim abandonado de textos
uma fila
filhos alagados
mãos boiando 
o poeta é sempre mais feliz quando dorme
o poeta sonha de mãos dadas com seus filhos

terça-feira, 5 de outubro de 2021

5

por vezes o corpo 
(o próprio correr do sangue
isto que em nós permanece
rotação e ritmo
espera por um pulsar
específico
o estalo de um instante
fresta de sonho
em plena luz do dia)
pede por um poema
uma pausa

no motor da monotonia 


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

4

Um poema, disse Mallarmé, é feito
de palavras, não de ideias 
estou aqui agora dentro desta casa 
recolhido em meu quarto 
amarrado nesta rua do bairro mais antigo da cidade 
preciso começar uma pesquisa
isto é uma perícia não
uma carícia 
no fim não faço a menor
ideia minhas palavras
morrem na praia
a quinhentos quilômetros daqui 

sábado, 2 de outubro de 2021

3

a partir destes dedos
que não seguram
o peso do tempo
cenas que passam
como nuvens
chuvas ácidas
tempestades de poeira

escrevo

sem nada a dizer
desta sala vazia
de suas janelas abertas
para a ventania
entre as folhas secas
e o ruído das palavras
em ruínas




sexta-feira, 1 de outubro de 2021

2

os braços da noite
sangram e a lembrança
sustenta o movimento
dos dedos nada dura

meu amor a vida destas
estrelas os lábios
destes poemas o medo
mas a lembrança sustenta
o movimento dos dedos

30

Sim, um deserto pode derrotar a si mesmo basta deixar seu assunto morrer de sede à míngua a luz clara cega qualquer palavra seca qualquer la...